🖤 "Character" (2021): O Rosto do Mal e a Obsessão pela Autenticidade
“A arte imita a vida. Mas e quando a vida começa a imitar a arte?”
"Character", filme japonês de 2021 dirigido por Satoshi Nagai, é um thriller sombrio sobre criação, violência e a tênue linha que separa o real do ficcional. Nele, acompanhamos Keigo Yamashiro (Masaki Suda), um mangaká frustrado que sonha em desenhar vilões verossímeis — até testemunhar um assassinato brutal e transformar o assassino real no protagonista de seu mangá. O sucesso, é claro, cobra um preço alto.
🎭 Personagens como espelhos quebrados
Keigo é o típico protagonista silencioso de suspense japonês: retraído, gentil, preso no próprio mundo. Sua evolução (ou talvez corrosão) começa quando cruza o caminho de Morozumi, interpretado por Fukase (do SEKAI NO OWARI) em sua estreia como ator. Morozumi é um vilão que transcende a tela — não por ser o mais violento, mas por ser o mais estético. Ele é a arte viva, perigosa, sedutora.
“Ele me olhou como se já soubesse que eu o transformaria em papel.”
O relacionamento entre Keigo e Morozumi é quase simbiótico. A cada novo capítulo de seu mangá, um novo assassinato ocorre — e Morozumi parece seguir o roteiro com prazer, como se esperasse por cada traço do desenhista.
🧠 A mente do criador: o artista como cúmplice
A proposta de "Character" é inquietante: até onde um artista está disposto a ir pela autenticidade de sua obra? Keigo, ao transformar a realidade em narrativa, acaba assumindo um papel dúbio: vítima e cúmplice, autor e voyeur.
O roteiro, assinado por Takashi Nagasaki (colaborador de Naoki Urasawa), carrega ecos de mangás como Monster e 20th Century Boys, nos quais o vilão é carismático, quase messiânico, e o protagonista se perde tentando entender a natureza do mal. Mas "Character" vai além: sugere que o mal é necessário para a arte — ou, pior, que o artista é quem o desperta.
🎨 Estética da violência: entre quadros e quadros
O filme é visualmente impactante. A paleta escura, os enquadramentos friamente calculados, o ritmo silencioso das cenas — tudo parece evocar o ambiente de um mangá noir. A fotografia faz com que cada momento pareça uma vinheta, um quadro preso na página de um volume sombrio.
“A cada traço, ele matava de novo. E eu, como artista, o deixava viver.”
Fukase é um destaque à parte. Sua atuação etérea, quase teatral, transforma Morozumi num ser entre o humano e o simbólico. É difícil não pensar nele como uma manifestação do próprio trauma de Keigo, uma entidade surgida do vazio entre criatividade e culpa.
🔍 Ecos e influências: quando o mangá inspira o cinema
"Character" dialoga com outras obras japonesas sobre crime e identidade, como Confessions (2010), de Tetsuya Nakashima, e Memories of Matsuko (2006), além dos mangás já citados. Também ressoa com thrillers ocidentais, como Seven e Zodiac, mas com aquele toque inconfundível do cinema japonês: a violência introspectiva, o silêncio que pesa mais que o grito.
🗒️ Considerações finais: recomendação e reflexão
"Character" é um filme para quem aprecia thrillers psicológicos que desafiam a moralidade do espectador. Ele levanta questões sobre o papel da arte, a responsabilidade do artista e o poder do vilão como catalisador narrativo.
Se você busca algo além de sustos baratos ou ação frenética — se deseja um suspense que permaneça depois dos créditos — este filme é para você.
Nota pessoal: 🌕🌕🌕🌕🌗 (4.5/5)
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